July 23, 2008

Sapir-Whorf e o offshore

Desenvolvimento de software tem tudo a ver com comunicação. O software a desenvolver deve representar uma realidade, resolver um problema. O primeiro passo é entender essa realidade. Nesse quadro o idioma, vetor da comunicação, tem uma importância crucial. Ainda mais porque creio que, até certo ponto, o idioma não é só um vetor para a comunicação mas também condiciona como apreendemos a realidade.

Essa questão aparece fortemente no caso do desenvolvimento de software offshore que tipicamente implica a colaboração com pessoas de outras linguas mães. Tem sido um lugar comum constatar que as barreiras linguísticas são umas das dificuldades no offshore. E são mesmo.

Passo rapidamente sobre pontos óbvios de acentos e erros grosseiros de lingua. Esses problemas são relativamente fáceis de se resolver porque aparecem de jeito evidente. Sem precisar entrar em detalhes de informática, tem exemplos hilários de desentendimentos possíveis citados pela revista "Lingua Portuguesa" no seu numero 23: "Em espanhol 'matar la bicha con la porra' significa 'matar a cobra com o porrete. E 'ahi viene un tarado pelado con su saco en la mano corriendo atras de la buseta' quer dizer 'aí vem um careca retardado com seu paletó na mão correndo atrás do microônibus'". Também tem uma descrição interessante do assunto nessa página.

Sapir-Whorf

Muito mais difícil é a questão do desentendimento: uma mensagem passou do emissor para o receptor, claramente e sem erros evidentes de comunicação (o checksum da mensagem é correto). Porém, essa mensagem foi interpretada de jeito diferente pelos dois lados. Esse problema é vicioso: ele não aparece imediatamente, só vai (eventualmente) aparecer indiretamente tempos mais tarde.

A hipótese de Sapir-Whorf foi aplicada também às linguagens de programação. Kenneth Iverson, criator do APL, escreveu a tese no "Notation as a Tool of Thought" que as linguagens ou notações mais poderosas ajudam a pensar algoritmos.
É interessante mencionar aqui a hipotese de Sapir-Whorf, "que pode ser resumida, basicamente, ao dizermos que a natureza de uma língua particular influencia o pensamento habitual dos seus falantes [..] essa hipótese basicamente nega que se possa descrever o mundo neutramente por meio de uma língua natural." [Mário Eduardo Viaro, "A esperança é a última que foge", revisa Língua Portuguesa n° 23]

Sem ir até dizer que a língua é uma prisão para a mente, creio que efetivamente a lingua constitui um filtro através do qual se entende a realidade. Por isso, meramente falar uma língua comum (tipicamente o inglês) não é totalmente suficiente: os dois lados entendem a realidade através do seu próprio filtro e cultura. Mesmo que os dois lado tenham um bom nível na língua, fica a possibilidade de desentendimentos.

Nossa Estratégia

Não pudia acabar esse post na impressão que o desenvolvimento offshore é no melhor dos casos imperfeito. Na nossa experiência em desenvolvimento offshore temos aplicado algumas estratégias que têm dado certo.

Além de esforços para aumentar a proficiência da nossa equipe em inglês (75% da equipe segue aulas de inglês), a nossa resposta esta no processo de desenvolvimento implementado e na cultura da empresa.

Uma resposta ágil

Estamos convencidos do valor do "agil documentado". Um dos princípios de base do ágil é a importância da comunicação: "The most efficient and effective method of conveying information to and within a development team is face-to-face conversation". Poderia parecer contraditório e impossível no caso do offshore porque comunicação pessoal é em geral impossível. "At first glance, it may seem as though agile methods, with their reliance on face-to-face communication and emphasis on collaboration, would be nearly impossible to implement with an onshore/offshore development team." [Matt Simons, "Internationally Agile"]

O importante do princípcio (não é regra) é a importância e o esforço colocado na comunicação estreita e contínua. Por isso usamos várias práticas como integração contínua, desenvolvimento iterativo e outras práticas ágeis (gosto particularmente do Scrum).

Uma cultura internacional

Além de estruturar o desenvolvimento, nossos esforços vão além da simples comunicação. Eles visam a integrar o quanto possível as equipes para que ambas as partes possam ser concientes das diferenças culturais e linguísticas e integra-las na sua comunicação (evitando o "efeito Sapir-Whorf"). Essa integração internacional faz parte da cultura da empresa: não é por acaso que temos quadrinhos de desenhistas belgas nas paredes.

1 comments:

  1. Please post more often in English and/or French.

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