August 06, 2008

As dificuldades para exportar: um exemplo europeu

Uma opinião publicada uns tempos atrás, "Dificuldades na exportação de software: de quem é a culpa ?" apontava o alto custo da mão de obra como razão da dificuldade para exportar e a importância das certificações nesse processo.

As certificações têm sem dúvida uma grande importância e terei a ocasião de voltar nesse ponto ulteriormente. A questão do alto custo da mão de obra é bem real também e frente a esse problema gostaria de lançar algumas idéias nascidas da minha experiência em exportação de software para a Bélgica.

Ponto bem conhecido, uma importante dificuldade enfrentada pelos exportadores é o custo da mão de obra. O Brasil esta efetivamente numa posição difícil a esse respeito: os custos salariais são mais altos do que os dos concorrentes internacionais, sejam eles da Índia ou da África do Norte. Na nossa área de serviços, esse custo relativamente alto do principal fator de produção tem um impacto direto no preço - ou nas margens.

Portanto, esse custo atrapalha a competitividade brasileira no mercado internacional. E mais ainda do que essa visão estática da situação atual, o importante é a evolução futura da competitividade brasileira. Se o Brasil quiser ficar competitivo nesse mercado, o aumento dos salários deve ser limitada e ficar, no máximo, igual à dos principais concorrentes (corrigindo pela evolução do câmbio).

O exemplo belga

A Bélgica é um pequeno país economicamente muito dependente das suas relações com paises vizinhos (França, Alemanha, Holanda). Para proteger o emprego através da sua competitividade, o governo Belga votou uma lei "Loi relative à la promotion de l'emploi et à la sauvegarde préventive de la compétitivité" (Lei relativa à promoção do emprego e a defesa preventiva da competitividade) que limita a evolução salarial na Bélgica à evolução nos seus principais parceiros comerciais.

Concretamente (e simplificando), um "conselho superior da economia" publica anualmente um relatório técnico sobre a margem máxima disponível a priori para a evolução do custo salarial, tendo como base a evolução esperada nos paises de referência. A partir desse relatório, os parceiros sociais fixam a cada dois anos no quadro de acordos setoriais a margem máxima para a evolução do custo salarial. A suma da indexação, dos aumentos salariais e outros benefícios não podem ultrapassar esse limite. Se os parceiros sociais não conseguirem um acordo, o governo faz uma proposta de mediação e eventualmente decide.

Mais do que provavelmente, tal lei não poderia existir dessa mesma forma no Brasil. Primeiro porque o modelo de concertação social Belga no qual as negociações salariais setoriais são centralizadas entre os "parceiros sociais", que são os sindicatos. Representantes do patronato e governo não existem dessa forma no Brasil. Segundo porque a abertura da economia brasileira é bem menor do que na Bélgica - a parte do comercio exterior no produto interior é muito menor e, portanto o interesse de limitar os aumentos salariais de um setor inteiro apenas por causa da competitividade exterior faz menos sentido.

Esta matéria foi inicialmente publicada como opinião na revista TI Inside. Como continuo a achando válida, a adicionei aqui
Contudo, e mesmo se a implementação for diferente, duas idéias são interessantes. A primeira é de dispor de uma ferramenta rigorosa de medida e monitoramento da posição do Brasil em relação aos seus principais concorrentes. A segunda é de usar esse valor nas negociações salariais no objetivo de proteger a posição dos exportadores.

2 comments:

Pescador said...

Uma idéia interessante, seria as empresas que pretendem exportar, diminuirem seus lucros ao invés de impor um teto salarial. Isso soa algo meio socialista

H said...

Pescador,

Se os lucros da exportação fossem tão altos, acredite que os dirigentes de empresas (e até os sindicatos, no exemplo belga) não se preocupariam em manter a competitividade internacional.

Na verdade você não entendeu direito o artigo, pois a idéia não é de import um teto salarial mas sim de negociar a evolução dos salarios com os representantes das empresas e dos trabalhadores (sindicatos).

Infelizmente, ainda há quem não enxerga além da luta pelo tamanho do seu pedaço do bolo. Precisaria primeiro defender o bolo, não acha ? Mas é verdade... se tudo der errado, ainda podemos ser motoristas na Transol.