May 28, 2008

O líder

Seguindo um email recebido de uma colaboradora, escrevi uma resposta que me parece ter seu espaço no meu blog de criador de empresa.

Em certas empresas, dar sua opinião é mal visto e até reprimido. Em particular quando se trata de opiniões sobre a politica da empresa ou as decisões de um superior. Creio que seja errado mas entendo essa posição. Aceitar opiniões diferentes, e portanto críticas, é um exercicio extremamente difícil para qualquer chefe. Aceitar a crítica é perder o estatudo de "monarca absoluto de direito divino". A partir desse momento, precisa se preparar a defender suas escolhas. A explicar o caminho escolhido, a convencer que ele é o melhor.

Aceitando a crítica, passa da posição confortável de chefe para essa muito mais difícil de líder. A primeira diferença entre as duas é que o líder precisa construir uma verdadeira legitimidade. O chefe é seguido porque é o chefe. O Líder é seguido porque a equipe acredita nele.

"Conseqüentemente, líder é aquele que lidera, conduz, que mostra os caminhos e por isso sempre está na frente dos demais. É também aquele que estimula os indivíduos a persistirem na busca de melhores resultados num ambiente de riscos, incertezas e desafios. Para Megginson, Mosley e Pietri, “liderança é um processo de influenciar as atividades individuais e grupais, no estabelecimento e atingimento de metas”" [Rogerio Martins, "Da Criação do Líder ao Líder Criador"]

Contudo, liderança não significa república. Não significa que qualquer decisão tenha que ser votada pelo parlamento da equipe. Enquanto direção da empresa, tomo e assumo as decisões necessárias. Líder nem é aquele que agrada a todos pra ser popular. Talvez um dia eu tenha que tomar decisões desagradaveis (tipicamente, demitir um colaborador que não atinge o nível necessário, atrasando a empresa toda). O importante é agir com senso de justiça.

Não escolhi o caminho da liderança pela sublimidade da coisa. Menos ainda pela honra da posição (que muitas vezes é ingrata). Essa escolha decorre de uma visão que tenho da nossa profissão e do nosso ambiente. Minha opinião é que no mundo economico onde atuamos, com uma grande liberdade dos profissionais e a desmaterialização da produção, o tempo dos chefes acabou. O tempo trabalhado parou de ser diretamente ligado à produção. Tanto a produtividade quanto a qualidade são diretamente ligados à motivação e iniciativa dos colaboradores da empresa. Essa visão se reflete também na aplicação dos principio de desenvolvimento ágil que mudam uma parte do poder de decisão para a equipe.

Escolhi o caminho da liderança também por outra razão: critica construtiva enriquece. O nosso principal custo é para recrutar e conservar uma equipe competente. Equipe composta de profissionais experientes. Escutar a opinião dela pode trazer muita informação sobre a direção a ser seguida.

E no Brasil ?

Aproveito esse post para lançar uma pergunta voluntariamente polêmica. Devo insistir que se age de uma pergunta, não de uma afirmação desfarçada. Polêmica porque já espero umas reações virulentes. Repito: apenas uma pergunta, aplicação do método socrático de maiêutica.

O modo de liderança adequado depende da cultura (cultura no sentido conjunto de valores) da equipe. Nem toda equipe pode funcionar corretamente com qualquer tipo de liderança ou direção. Liderança requer uma certa maturidade da equipe que precisa ter uma motivação intrinseca, produzindo seu melhor quando posta nas condições certas. Minha opinião acima foi construida na base da minha experiência em desenvolvimento de software com equipes belgas. Portanto, na cultura belga.

E no Brasil ? Será que uma equipe brasileira, na cultura brasileira, pode funcionar corretamente desse jeito ? Será que uma equipe brasileira não precisa de um chefe mais de que um líder, colocando limites muito estreitos e regras rígidas ? Será que essa opinião acima não vai fracassar na diferença cultural sutíl embora profunda entre os dois mundos ?

Claro, já tenho uma opinião a esse respeito, índice da qual é a organização atual da Sofshore. A explicarei num próximo post, deixando por enquanto espaço para comentários (construtivos, sempre).

[Post originalmente criado no belganailha.blogspot.com]

May 21, 2008

Mas qual é o caminho certo ?

Ouvi dizer que "as dificuldades são um jeito que Deus usa para mostrar o caminho certo"

Alias, até hoje minha pobre lógica hesite sobre essa afirmação.

Não sei se é para desistir na frente das dificuldades, escolhendo um caminho mais fácil e mais "natural". Afinal, se tem tantas dificuldades, deve ser porque o caminho esta errado ?

Não sei se devo agir de jeito exatamente oposto: tentar superar as dificuldades, lutar até exaustão, conseguir vencer e avançar no caminho escolhido apesar de tudo.

Escolhi a segunda opção. Não por ser "o caminho certo". Pela minha natureza. Acredito que quem fracassou perseguindo seu sonho é um homem feliz. Como falou o Gautier de Châtillon, "Qui a bon coeur trouve toujours bon temps pour la bataille" (quem tem bom coração sempre acha o tempo bom para a batalha).

[originalmente postado em http://belganailha.blogspot.com]